Por Alfredo Scaff
O episódio ocorrido na Universidade Federal do Paraná (UFPR), durante uma palestra sobre o Supremo Tribunal Federal e sua atuação constitucional, escancarou um problema que vem se agravando silenciosamente nas instituições de ensino superior brasileiras: o ativismo ideológico radical que sufoca o debate livre e transforma o ambiente acadêmico em trincheira de intolerância. O evento, que contaria com a presença dos vereadores Guilherme Kilter e Rodrigo Marcial, além do advogado Jeffrey Chiquini, foi interrompido por um grupo de estudantes e militantes de esquerda que ocuparam o espaço destinado à palestra, impediram sua realização e, segundo relatos dos convidados, promoveram agressões físicas e verbais, culminando em um cenário de caos e violência.
A contradição é gritante. Em um curso de Direito — cuja essência deveria ser o respeito à legalidade, à liberdade de expressão e ao contraditório — estudantes se mobilizaram para impedir que vozes divergentes fossem ouvidas. O que deveria ser um espaço de debate democrático se transformou em um campo de batalha ideológica, onde o pensamento único é imposto pela força e pela intimidação. A incoerência desses militantes é ainda mais evidente quando se observa que, ao mesmo tempo em que exigem respeito às suas pautas e bandeiras, negam esse mesmo direito àqueles que pensam diferente. Trata-se de uma inversão perversa dos valores que sustentam o Estado Democrático de Direito.
O silêncio da direção da UFPR diante da escalada de hostilidade também merece destaque. Ao não garantir a realização do evento e permitir que a ordem fosse rompida por um grupo de manifestantes, a instituição falhou em seu papel de guardiã da liberdade acadêmica. A nota oficial publicada posteriormente, que critica o uso da força policial e relativiza a responsabilidade dos agressores, soa como uma tentativa de se esquivar do dever institucional de proteger o livre exercício do pensamento. A universidade, que deveria ser um espaço de construção de conhecimento e diálogo, se omitiu diante da barbárie, contribuindo para a normalização da censura e da violência política.
Esse tipo de ativismo ideológico, longe de representar uma luta legítima por justiça social, revela-se como uma forma de autoritarismo disfarçado. A doutrinação política, denunciada por diversos estudiosos e movimentos como o Escola Sem Partido, tem se infiltrado nas universidades, promovendo a estigmatização de posições conservadoras e religiosas, e criando um ambiente hostil à diversidade político-religiosa. A hegemonia de um pensamento único, sustentada por moralismo militante e pela criminalização das divergências, ameaça a própria razão de ser da universidade: a busca livre e plural pelo conhecimento.
O caso da UFPR não é isolado. Em outras instituições, como a Universidade de Brasília, embates entre grupos de esquerda e direita têm se intensificado, revelando uma polarização que ultrapassa os limites do debate saudável e se transforma em confronto ideológico radical. A cultura institucional acadêmica, impregnada por um ativismo seletivo, adota um duplo padrão moral que tolera agressões quando partem de seus aliados ideológicos, mas condena veementemente qualquer manifestação contrária. Essa postura não apenas compromete a integridade das universidades, como também mina os fundamentos da democracia.
É preciso reconhecer que movimentos estudantis têm um papel histórico importante na luta por direitos e transformações sociais. No entanto, quando esse movimento se converte em instrumento de censura, violência e exclusão, ele deixa de ser legítimo e passa a representar uma ameaça. A agressão aos palestrantes na UFPR, o cerceamento do debate e a omissão institucional são sintomas de um mal maior: a corrosão da liberdade de expressão e do respeito à diversidade de pensamento dentro das universidades.
