Aplausos para o Sarcasmo: A Miopia da Elite Acadêmica

Por Alfredo Scaff –

Em um recente episódio que ganhou repercussão nacional, uma palestra proferida em uma universidade para formandos de Direito expôs de maneira clara a fragilidade crítica de parte da juventude acadêmica diante de situações que envolvem diretamente os fundamentos do Estado de Direito. Durante a exposição, um magistrado de alta corte utilizou de sarcasmo ao se referir à prisão de um ex-chefe de Estado, e a reação imediata dos estudantes foi aplaudir, sem qualquer reflexão sobre o peso institucional e democrático que tal manifestação carrega. O gesto, aparentemente banal, revela uma preocupante miopia: a incapacidade de distinguir entre a retórica política e o compromisso com os valores constitucionais, os direitos humanos e o devido processo legal.

Esse episódio não pode ser analisado isoladamente. Ele se soma a um contexto em que membros da magistratura são alvo de questionamentos por envolvimentos indiretos em contratações de escritórios de advocacia com valores considerados exorbitantes, levantando suspeitas sobre a lisura e a moralidade de tais práticas. Ainda que não se trate de ilegalidade formal, a percepção pública é de que há um ambiente de favorecimento e de abuso de poder, o que compromete a credibilidade da Justiça. Quando juízes que deveriam ser guardiões da Constituição se tornam protagonistas de polêmicas que os colocam sob suspeita de violações de direitos humanos e de práticas incompatíveis com a ética republicana, o risco institucional se torna evidente.

O mais grave, contudo, é a reação dos estudantes. Jovens que deveriam ser formados para questionar, analisar criticamente e defender os pilares da democracia se mostram coniventes com discursos que, em essência, banalizam o devido processo legal e naturalizam o abuso de poder. 

Aplaudir o sarcasmo diante de um tema tão sensível não é apenas um gesto de entusiasmo juvenil, mas um sintoma de uma formação acadêmica que privilegia a militância ideológica em detrimento da reflexão jurídica. As universidades públicas, que deveriam ser o espaço de construção da elite intelectual do país, vêm sendo ocupadas por uma cultura ativista que confunde democracia com partidarismo, e crítica com adesão acrítica a narrativas dominantes.

Essa deformação cultural ameaça diretamente o futuro da nação. Se os futuros operadores do Direito não são capazes de enxergar a diferença entre justiça e vingança, entre legalidade e arbitrariedade, entre democracia e ideologia, o sistema jurídico corre o risco de se tornar mero instrumento de poder. A ausência de senso crítico diante de fatos concretos da vida real, como contratações suspeitas, decisões judiciais questionáveis e discursos que afrontam valores democráticos, revela que a formação acadêmica está cada vez mais distante da realidade social e institucional.

O resultado é um ambiente em que a juventude universitária, em vez de se tornar guardiã da Constituição e defensora dos direitos humanos, se transforma em plateia de aplausos para manifestações que corroem os fundamentos do Estado de Direito. 

Essa postura não apenas fragiliza a democracia, mas legitima práticas que podem ser interpretadas como violações de tratados internacionais e como abuso explícito de poder. Quando a elite intelectual em formação se mostra incapaz de distinguir entre ideologia e democracia, o país perde sua capacidade de renovar lideranças comprometidas com a justiça e com a liberdade.

Portanto, o episódio da palestra não é apenas um fato isolado de sarcasmo e aplausos. Ele é o reflexo de uma crise mais profunda: a substituição da reflexão crítica pela militância, da busca pela verdade pela adesão a narrativas, da defesa da Constituição pela submissão a ideologias. 

Se as universidades públicas, que deveriam ser o berço da racionalidade e da crítica, continuam a formar profissionais cegos diante da realidade, o futuro do Brasil estará comprometido. 

O cerne da questão não é apenas jurídico, mas cultural: enquanto a ideologia prevalecer sobre a democracia, a sociedade continuará aplaudindo o abuso de poder e ignorando os princípios que deveriam sustentá-la.

A OAB Segue Muda. E A Democracia, Ferida.

Por Alfredo Scaff –

Há silêncios que não são neutros.
Há instituições que, ao se omitirem, escolhem um lado.
E há limites — mesmo para a covardia.

É inaceitável que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, entidade que um dia ergueu a voz pela redemocratização do país, hoje negue à própria advocacia o direito elementar de escolher, pelo voto direto, quem a representará nacionalmente.

Não se trata de uma pauta corporativa. Trata-se de coerência.

A advocacia, que em sua essência existe para defender o cidadão contra os excessos do Estado, permanece subordinada a uma estrutura que ignora a vontade da base, perpetua oligarquias regionais e cala diante das violações do Estado de Direito.

Como exigir respeito às prerrogativas, se a própria instituição que deveria garanti-las prefere o silêncio?
Como defender a ampla defesa, se aqueles que a representam não têm coragem de defender nem a si mesmos?
Como falar em justiça, se a parcialidade se naturaliza — e a OAB assiste, calada?

Recentemente, assistimos a mais um episódio que escancarou a assimetria de forças dentro do Judiciário brasileiro. Um juiz reconheceu publicamente que errou ao cumprir a lei. E pediu desculpas por isso. Um gesto revelador: há medo. há ameaça, há pressão e, consequentemente, desequilíbrio.

E o que fez a OAB?
Silenciou. Nem uma nota. Nem um gesto. Nenhuma palavra.

Essa mesma OAB ignora há tempos o Projeto de Lei 1123/22 — proposto por mim em 2022, apresentado pelo deputado Guiga Peixoto e de relatoria da deputada Bia Kicis — que estabelece eleições diretas para a presidência do Conselho Federal. Uma proposta justa, legítima e urgentemente necessária.

Afinal, se a democracia não cabe dentro da OAB, como ela pode pretender defendê-la fora dela? O papel da advocacia é ser contrapeso. É garantir que o Estado não se torne opressor. É lembrar que nenhum poder é absoluto. Que nenhum processo é justo sem o contraditório. Que nenhuma autoridade está acima da Constituição.

Quando a OAB cala, a justiça enfraquece.
Quando a OAB se omite, os direitos murcham.
Quando a OAB se curva, não é a advocacia que se ajoelha — é o próprio Estado de Direito que sangra.

Eleição indireta é resquício autoritário.
A submissão institucional é corrosiva.
E a covardia nunca será neutra.

Exigimos eleições diretas para o Conselho Federal URGENTE!

Por dignidade. Por coerência.

E, sobretudo, por justiça.

O risco silencioso do PL 3999/2020: o cartório tem advogado, mas não para você

Por Alfredo Scaff –

A defesa do Projeto de Lei 3999/2020, de autoria da deputada federal Carol de Toni (PL-SC), que versa sobre a possibilidade de notificação extrajudicial de inquilinos inadimplentes pelos cartórios, sob pena de despejo, costuma vir acompanhada de uma justificativa aparentemente razoável: “Mas o procedimento tem advogado! O cartório já tem um profissional do Direito acompanhando!”

E é aí que mora o perigo.

Porque o fato de o cartório ter um advogado lá dentro não elimina — nem justifica eliminar — a necessidade do advogado que representa o cidadão, aquele que defende, orienta, contesta. O advogado do cartório é da estrutura. Não é o seu defensor.

Presença institucional não é defesa jurídica. Os cartórios, como delegações do poder público, possuem sim bacharéis em Direito e profissionais habilitados. Mas esses profissionais não têm a função de proteger o seu direito individual.

Eles estão ali para garantir a formalidade do ato — e não para tomar partido.

Já o advogado contratado por você: Analisa a legalidade do contrato; Aponta abusos ou ilegalidades; Defende seu interesse no rito e, se necessário, em juízo. Sem ele, o cidadão está juridicamente exposto, mesmo em um procedimento “assistido” por alguém com OAB do outro lado do balcão.

Mas o PL exige advogado?

Sim, o PL menciona a obrigatoriedade de advogado para o procedimento extrajudicial. Isso é positivo. Mas na prática, corre-se o risco de que essa exigência seja cumprida de forma genérica ou institucional — ou seja, com a chancela de um advogado vinculado ao cartório, e não às partes envolvidas.

Esse é o ponto: Não basta ter advogado no processo. É preciso ter o seu advogado.

Se não houver cuidado na regulamentação, o rito poderá acontecer com: a parte notificante amparada; A parte notificada desassistida; E o cartório funcionando como um balcão que formaliza um despejo, sem contraditório real.

Desjudicializar não pode significar desproteger. É legítimo buscar celeridade. Mas isso não pode ser feito ao custo de: enfraquecer a advocacia; Reduzir o papel do Judiciário a mero carimbo; E fortalecer estruturas privadas com poderes públicos.

Advogado não é enfeite. É escudo. É equilíbrio. Quando o cartório assume o papel central e a defesa técnica se torna dispensável, o cidadão perde. A Justiça se afasta. O direito enfraquece.

Ter um advogado no cartório não é o mesmo que ter um advogado do seu lado.  O PL 3999/2020 precisa deixar isso claro.  O risco de institucionalizar uma Justiça privada, formalista e desassistida é grande — e quem paga essa conta é sempre o lado mais fraco da relação contratual.

A defesa da legalidade, da técnica e da justiça passa pela presença ativa e plena da advocacia em todos os procedimentos jurídicos com impacto direto na vida das pessoas.

É por isso que o PL 3999/2020, embora tenha méritos na busca por agilidade, precisa ser tratado com extrema cautela.  A indispensabilidade da advocacia não pode ser substituída por um profissional institucional, mas garantida por defesa jurídica real, contratada e independente.

Portanto, que a Justiça seja célere — mas com garantias.  Com a advocacia presente. Com o cidadão bem assistido.

Entre A Força E O Vácuo: Trump Expõe O Desgaste Da Ordem Global

Por: Alfredo Scaff –

Mais do que um personagem polêmico, Trump revela a falência de modelos tradicionais e inaugura um ciclo que desafia instituições — jurídicas, políticas e diplomáticas. A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, representa mais que o retorno de um personagem polêmico. É o sintoma de um sistema global em crise — e o gatilho de um novo ciclo que desafia instituições políticas, jurídicas e diplomáticas.

O que antes parecia impensável agora se impõe como realidade: conservadores e liberais, por razões distintas, veem em Trump uma alternativa ao imobilismo das democracias centristas. Para uns, ele é o guardião da soberania, da segurança e da tradição. Para outros, o catalisador da desburocratização e da liberdade econômica. Em comum, o desejo por resultados concretos.

Trump preenche o vácuo deixado por governos que, em nome da moderação, deixaram de agir. Seu estilo direto, muitas vezes considerado agressivo, passou a ser interpretado como assertividade — principalmente diante de um Estado que muitos consideram inchado e de instituições vistas como frágeis.

No cenário internacional, Trump retoma o lema *America First* com impacto imediato. Alianças globais, acordos multilaterais e a atuação dos EUA em organismos como ONU e OTAN voltam a ser questionados. Países como o Brasil, fortemente conectados aos EUA, terão que recalibrar estratégias com urgência.

Sua retórica nacionalista já influencia outras lideranças, fomentando posturas mais duras em temas como imigração, segurança, meio ambiente e direitos civis. Esse movimento pode consolidar uma nova direita internacional — menos dependente de fóruns multilaterais e mais focada em interesses internos.

Em publicação recente, Trump revelou ter conduzido pessoalmente uma ligação de duas horas com Vladimir Putin, da Rússia, resultando no início imediato de negociações por um cessar-fogo com a Ucrânia. A proposta, segundo ele, já foi informada a Zelensky, líderes europeus e ao Vaticano, que se ofereceu para sediar os diálogos.

Mais que diplomacia tradicional, trata-se de uma diplomacia de choque — um reposicionamento dos EUA como centro da ação geopolítica, com Trump no papel de mediador informal. A mensagem é clara: quem quiser negociar com Washington, deve fazê-lo no ritmo e nos termos desse novo ciclo.

Do ponto de vista jurídico, essa guinada tem efeitos imediatos. Migração, federalismo, liberdade religiosa e iniciativa privada voltarão ao centro do debate. Para a advocacia — especialmente na interface com o direito internacional, o comércio exterior e os direitos constitucionais — os desafios se multiplicam: litígios, disputas regulatórias e reinterpretação de tratados internacionais serão cada vez mais frequentes.

É fácil cair na tentação de pintar Trump como ameaça. Mas quem atua com o Direito sabe: o papel do jurista não é reagir por impulso, e sim compreender a dinâmica em curso. Trump não é um heroi. Nem um vilão. É um catalisador. Ele acelera transformações e escancara as falhas de uma ordem que há tempos dá sinais de esgotamento.

Para nós da advocacia independente, crítica e atuante, o momento exige vigilância, preparo técnico, estratégia com lucidez, técnica e leitura clara dos movimentos em andamento.

A nova era já começou e o mundo mais uma vez está girando em outra direção.

Fraudes no INSS: quando a reparação exige mais que indignação – exige advocacia

Por: Alfredo Scaff –

Nos últimos meses, milhares de brasileiros foram surpreendidos ao descobrir que seus benefícios do INSS haviam sido usados em fraudes — sem aviso, sem consentimento, sem sequer desconfiarem. Aposentados com empréstimos consignados que nunca pediram, pensionistas com dados violados, segurados com descontos indevidos e um sentimento comum a todos: a indignação. Mas a indignação, por si só, não resolve. O que resolve é ação. E é aí que nós, advogados, entramos.

É curioso como, em momentos como esse, muitos ainda acreditam que “esperar pelo INSS” resolverá o problema. Não resolverá. Ou, pelo menos, não com a urgência e a reparação que o caso exige. Estamos falando de um golpe que, além de ferir o bolso, humilha quem trabalhou a vida inteira por seus direitos. E quando o Estado falha — seja por omissão, descaso ou lentidão — a Justiça precisa ser acionada.

O papel do advogado é técnico, mas também é humano

Sim, somos especialistas em leis, prazos e provas. Mas somos, antes de tudo, ponte entre o cidadão comum e um sistema que muitas vezes o engole. Quando alguém chega ao nosso escritório com um extrato na mão e os olhos cheios de dúvidas, não estamos apenas elaborando uma petição. Estamos restaurando confiança, reconstruindo direitos, dando voz a quem foi lesado e, muitas vezes, silenciado.

Essa fraude do INSS expõe mais do que brechas em sistemas digitais ou falhas administrativas. Ela escancara o quão essencial é a advocacia no dia a dia das pessoas. Não apenas para grandes causas, mas para as causas justas — ainda que pequenas aos olhos do Estado, mas imensas na vida de quem as vive.

O tempo da omissão acabou

Este é um chamado à advocacia independente, à advocacia combativa e comprometida com a dignidade. É hora de sair da zona de conforto, de ir além da teoria e atuar na linha de frente dessa reparação coletiva. E para quem ainda pensa que o papel do advogado é apenas “entrar com processo”, aqui vai um lembrete: somos nós quem transformamos queixas em direitos reconhecidos, lesões em indenizações, injustiças em jurisprudência.

A advocacia não pode ser coadjuvante quando o povo é vítima. E, diante de um escândalo como este, não há espaço para hesitação. Há espaço para atuação — técnica, ética, firme e solidária.

Renovação na Advocacia: O Movimento ‘OAB pra você’ e as Mudanças Necessárias

Por: Alfredo Scaff –

O movimento “OAB pra você” representa a urgência de garantir que os advogados sejam os legítimos detentores da OAB/SP, reforçando que os recursos da entidade são um patrimônio coletivo, devendo ser administrados em prol de toda a classe advocatícia.

O Projeto de Lei 1513/21, idealizado por Alfredo Scaff Filho, propõe a obrigatoriedade da revisão por um advogado de todos os atos condominiais antes de sua submissão para registro, com o intuito de elevar o status e a importância da profissão. Considerando que aproximadamente um quarto da população brasileira reside em condomínios, a implementação desse projeto não apenas fortaleceria um mercado já consolidado, mas também assegura a proteção jurídica dos cerca de 60 milhões de cidadãos que vivem nesses locais.

A mudança essencial que se almeja na OAB/SP reside na transformação da entidade de um “clubinho de amigos” em um verdadeiro clube representativo de todos os inscritos, proporcionando igualdade de oportunidades e o respeito por parte do Poder Judiciário. É crucial que se estabeleça o respeito pelos honorários advocatícios conforme a legislação vigente, se promova uma assistência judiciária de qualidade e se proponham leis que valorizem e fortaleçam a advocacia. A defasagem de uma legislação complementar para o artigo 133 da Constituição, que declara a indispensabilidade do advogado na administração da justiça, é um ponto de atenção que há muito tempo não foi abordado.

Reconhecendo os desafios enfrentados pela advocacia e consultoria, é vital que os advogados tenham a flexibilidade e a capacidade de atuar em múltiplos contextos. Busca-se revitalizar a advocacia, conferindo-lhe combatividade, voz, dignidade e respeito, enquanto se propõe a modernização da OAB/SP. Reduzir a anuidade em 50% para viabilizar um plano de saúde mais vantajoso e simplificar as práticas jurídicas são passos essenciais para desburocratizar e fortalecer a profissão.

Alfredo Scaff, com sua vasta experiência em governos, habitação, meio ambiente, delegacia de polícia, tribunal fiscal e consultoria jurídica internacional, emerge como uma figura central e engajada na promoção dessas mudanças e aprimoramentos necessários.

STF Fora da Lei: Arbitrariedades que Destroem a Execução Penal e a Segurança Jurídica

Por Alfredo Scaff –

A mais recente decisão do Supremo Tribunal Federal em matéria de execução penal expôs, mais uma vez, a fragilidade institucional e a tendência de extrapolar limites constitucionais. No caso envolvendo a defesa de um réu, o STF assumiu papel que não lhe cabe, atuando como juízo de execução penal, em clara afronta ao ordenamento jurídico. Pareceres de juristas e especialistas na área reforçam que a execução penal deve ser conduzida pelo juízo competente, conforme previsto na legislação, e não pela Corte Suprema, cuja função é a de guardiã da Constituição e última instância recursal. Ao intervir diretamente neste campo, o Supremo não apenas viola a separação de competências, mas compromete o devido processo legal e a própria lógica do sistema de justiça criminal.

Não cabe ao Supremo Tribunal Federal, em hipótese alguma, assumir a função de juízo de execução penal quando o processo já se encontra em trânsito em julgado.

A própria Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984) é clara ao estabelecer, em seu artigo 2º, que a jurisdição penal nos processos de execução deve ser exercida pelos juízes ou tribunais da Justiça ordinária, em conformidade com a lei e o Código de Processo Penal. 

Ao determinar execução de pena diretamente, o STF viola esse dispositivo e usurpa competência que não lhe pertence, criando um precedente gravíssimo. Basta lembrar dos réus condenados no chamado núcleo 1 do suposto golpe ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e figuras próximas ao governo anterior, como ex-ministros, ex-assessores e aliados políticos. O STF determinou a execução das penas após o trânsito em julgado, com condenações que variam de pouco mais de um ano até mais de 27 anos de prisão, cujas penas, após o trânsito em julgado, deveriam ser executadas pelo juízo da execução competente, e não pela Corte Suprema. 

Essa prática, além de inconstitucional, compromete a lógica do sistema jurídico e fragiliza a segurança jurídica, pois transforma a última instância em um órgão que acumula funções que não lhe cabem, corroendo a confiança da sociedade na separação de poderes e no devido processo legal.

Em meio a essas arbitrariedades, mais uma vez, o silêncio da OAB Nacional é ensurdecedor. A entidade que deveria ser a voz firme da advocacia e defensora das prerrogativas da classe limita-se a uma postura subserviente, incapaz de enfrentar os abusos e de se posicionar com a contundência que o momento exige. 

A omissão diante de decisões que atropelam o devido processo legal e humilham advogados em pleno exercício profissional revela uma Ordem distante de sua missão histórica e cada vez mais alinhada a interesses de cúpula, em detrimento da defesa da democracia e da legalidade.

O resultado desse conjunto de erros e omissões é devastador para a segurança jurídica do país. Quando a última instância do Judiciário, que deveria ser o guardião da Constituição, passa a agir fora dos limites legais e a impor decisões arbitrárias, o sistema inteiro se fragiliza. A ausência de reação da OAB Nacional apenas agrava o cenário, deixando advogados e cidadãos desprotegidos diante de um poder que não encontra freios. 

A democracia depende de instituições fortes e comprometidas com o respeito às regras, mas o que se vê é um Supremo que não cumpre seu papel constitucional e uma Ordem que se cala diante disso. 

Essa combinação compromete não apenas a advocacia, mas a própria credibilidade do Estado de Direito, colocando em risco a confiança da sociedade na justiça e na democracia brasileira.

Suprema Festa

Por Alfredo Scaff –

Sim, o Supremo Tribunal Federal deveria ser o guardião da Constituição, um espaço de sobriedade e imparcialidade. No entanto, cada vez mais seus ministros se apresentam como protagonistas de uma verdadeira “Suprema Festa”, onde a liturgia do cargo se mistura com interesses privados, vaidades midiáticas e relações perigosamente próximas de setores que deveriam ser julgados com neutralidade. O que se vê na verdade é um desfile de episódios que expõem a fragilidade institucional e a falta de limites de quem ocupa o topo do poder judiciário.

Essa rotina de ministros se envolvendo em situações que levantam dúvidas sobre sua independência é gritante. Há casos de viagens em aeronaves de clientes de escritórios ligados a familiares, o que inevitavelmente gera questionamentos sobre a imparcialidade de decisões. Também existem episódios de organização de eventos jurídicos patrocinados por empresas que possuem processos em andamento no STF – eventos que chegam a ganhar apelidos próprios. Outros ministros se apresentam constantemente em programas televisivos como se fossem astros da mídia, reforçando uma imagem de celebridade que destoa da discrição esperada de juízes constitucionais. Houve ainda escândalos envolvendo contatos diretos com autoridades do setor econômico para interceder em favor de instituições financeiras que mantinham contratos milionários com escritórios de advocacia ligados a familiares.

Esses episódios, somados a outros, revelam um padrão preocupante: ministros que deveriam ser árbitros da lei se comportam como agentes políticos, vulneráveis às mesmas críticas e desconfianças que recaem sobre parlamentares e governantes.

O verdadeiro drama institucional reside na completa ausência de fiscalização e de qualquer punição para os atos que destoam da função constitucional dos ministros. Essa lacuna transforma incoerências em rotina e desvios em espetáculo, permitindo que se perpetue uma cultura de impunidade no coração da própria Corte que deveria zelar pela lei. Soma-se a isso a inação do Congresso, paralisado pelo receio de represálias do STF, e a conivência do Poder Executivo, que prefere preservar sua posição e garantir-se no poder a qualquer custo em vez de enfrentar os desequilíbrios institucionais – salvo raras exceções.

O resultado é evidente: consolida-se a percepção de que o Judiciário exerce sua autoridade de maneira potencialmente persecutória, sem freios institucionais, amparado pela certeza de sua inatingibilidade.

Por outro lado, ao se exporem como agentes políticos, os ministros se tornam vulneráveis como tais. A Constituição prevê que sua função é técnica e imparcial, mas a prática mostra que se colocam em arenas de disputa, opinando sobre temas políticos, participando de eventos patrocinados e se aproximando de interesses privados. Essa postura fragiliza a confiança pública e transforma o STF em palco de disputas, quando deveria ser o guardião da ordem constitucional.

E para surpresa de absolutamente ninguém, a inação da atual gestão da OAB continua contribuindo ainda mais para o naufrágio do Direito e da Justiça brasileira. A Ordem, que deveria ser a voz da legalidade e da defesa da Constituição, permanece mais uma vez silenciosa diante desses episódios. Escritórios próximos aos ministros são privilegiados, enquanto a Ordem se omite em denunciar práticas que afrontam a ética e o direito. Essa omissão é uma vergonha institucional: ao não se manifestar, a OAB legitima um sistema em que apenas os bem relacionados têm acesso privilegiado, enquanto o cidadão comum permanece desprotegido.

A “Suprema Festa” pode parecer apenas um desfile de vaidades e privilégios, mas seus desdobramentos são profundos e perigosos. A confiança nas instituições se erode, a democracia se fragiliza e a própria Constituição perde credibilidade.

Se os guardiões da lei se comportam como braços de escritórios de advocacia, celebridades ou agentes políticos, quem protegerá o cidadão comum? Quando não há quem enfrente o Supremo, o povo e a nação ficam à mercê de um poder absoluto. É nesse vazio de fiscalização e responsabilidade que se instala a maior ameaça: a de que o futuro da democracia brasileira seja decidido não pela lei, mas pela vontade de poucos que se julgam intocáveis.

OAB Nacional: Silêncio Cúmplice, Lobby Vergonhoso e o Desrespeito à Advocacia Brasileira

Por Alfredo Scaff –

Ordem dos Advogados do Brasil, instituição que deveria ser a guardiã das prerrogativas da advocacia e da defesa intransigente do Estado de Direito, tem se mostrado cada vez mais distante de sua missão histórica. A OAB Nacional, que outrora se destacou em momentos singulares da democracia brasileira, como nas Diretas Já de 1984, hoje parece submergir em um silêncio subserviente diante das arbitrariedades cometidas pelo sistema jurídico. Esse silêncio não é apenas incômodo: é humilhante para uma classe que conta com mais de um milhão de profissionais e que vê suas prerrogativas serem desrespeitadas diariamente, sem que a entidade que deveria representá-la se manifeste com firmeza.

Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se episódios em que advogados foram constrangidos em pleno exercício profissional, seja sendo retirados de sessões de julgamento sem justificativa legal, impedidos de acessar autos processuais indispensáveis à defesa, barrados de manter contato com clientes presos em momentos críticos, desqualificados publicamente por magistrados em audiências ou afastados arbitrariamente de processos nos quais atuavam, além de serem excluídos de diligências policiais nas quais tinham prerrogativa de acompanhar. 

A fraqueza da instituição se revela de forma ainda mais evidente quando, diante de um caso recente de liquidação de um banco marcado por graves indícios de fraude e pelo descumprimento flagrante do ordenamento jurídico, a OAB Nacional limitou-se a uma manifestação tímida e burocrática, incapaz de enfrentar a gravidade da situação. Em vez de assumir o papel de protagonista na defesa da legalidade e das garantias processuais, a entidade preferiu um posicionamento pífio, que mais pareceu uma tentativa de se esquivar do debate do que de proteger a advocacia e a sociedade. 

Esse tipo de postura não apenas expõe a fragilidade da Ordem, mas também reforça a percepção de que sua cúpula se distancia cada vez mais da missão de defender o Estado de Direito, optando pelo silêncio conveniente quando deveria erguer a voz contra arbitrariedades que comprometem a credibilidade do sistema jurídico brasileiro.

Enquanto a advocacia sofre humilhações e vê o processo legal ser desrespeitado, a cúpula da OAB Nacional parece mais preocupada em manter seus privilégios e sua estrutura de poder. Prova disso é o intenso trabalho de lobby que dirigentes da Ordem vêm realizando junto a congressistas para barrar o avanço do Projeto de Lei 1123/2022, que prevê eleições diretas para o Conselho Federal da OAB. O projeto, de minha autoria intelectual, busca corrigir uma distorção histórica: enquanto os presidentes das seccionais estaduais são eleitos por voto direto, o presidente da OAB Nacional continua sendo escolhido por um colégio restrito, alheio à vontade da ampla maioria da advocacia. É um contrassenso que os advogados brasileiros não tenham o direito de votar para o dirigente máximo da instituição que os representa. Trata-se de um desrespeito absoluto à classe, uma negação da democracia interna e uma contradição gritante para uma entidade que se orgulha de ter lutado pelas Diretas Já.

A pergunta que se impõe é inevitável: qual é o real interesse dessa elite que detém o poder da Ordem no Brasil? Por que tanto empenho em impedir que a advocacia tenha voz direta na escolha de seus representantes? A resposta parece residir na manutenção de privilégios, na defesa de causas próprias e na perpetuação de uma estrutura que serve mais aos dirigentes do que aos advogados ou a sociedade. A OAB Nacional, em sua cúpula, parece ter se transformado em uma entidade que esbanja recursos, que se lembra da maioria dos advogados apenas para cobrar a anuidade, mas que se cala diante das humilhações sofridas pela classe. É uma postura que mina a credibilidade da instituição e que distancia a Ordem de sua base.

O Brasil vive tempos de tensão institucional, e a advocacia deveria ser protagonista na defesa da legalidade e das garantias fundamentais. No entanto, a OAB Nacional parece ter escolhido o caminho da conveniência, do silêncio e do lobby. O PL 1123/2022 surge como uma oportunidade de devolver voz à advocacia, mas enfrenta a resistência daqueles que temem perder o controle de uma estrutura que lhes garante poder e status – e é isso que parecem temer. A advocacia brasileira precisa refletir: até quando aceitará ser conduzida por uma elite que não a representa? Até quando tolerará o silêncio diante das arbitrariedades? Até quando permitirá que sua própria instituição se afaste de sua missão histórica?

O futuro da OAB depende da coragem de seus membros em exigir mudanças. A luta por eleições diretas não é apenas uma questão administrativa; é uma questão de democracia, de representatividade e de respeito à advocacia. Se a Ordem não se reconectar com sua base, se não assumir a defesa intransigente das prerrogativas, corre o risco de se tornar irrelevante, lembrada apenas como uma entidade burocrática que cobra anuidades e protege interesses próprios. A advocacia brasileira merece mais. Merece uma OAB que fale, que enfrente, que defenda. O silêncio não é opção.

Não há progresso onde há violência — e o Brasil é prova disso

Por Alfredo Scaff

A violência não é apenas um problema social: é um obstáculo estrutural ao desenvolvimento de qualquer nação. Onde há medo, não há investimento. Onde há insegurança jurídica, não há inovação. Onde há criminalidade desenfreada, não há prosperidade. O Brasil vive essa realidade de forma crua e dolorosa. A cada operação policial que paralisa bairros inteiros, a cada escola que fecha suas portas por causa de tiroteios, a cada empresário que desiste de abrir um negócio por medo de ser extorquido ou assaltado, o país afunda um pouco mais no atraso.

O impacto econômico da violência é avassalador. Um único dia de conflito armado no Rio de Janeiro, por exemplo, gerou perdas estimadas em mais de R$ 120 milhões. Isso inclui paralisação de serviços, suspensão de aulas, interrupção de transporte público e queda na produtividade. E esse número sequer contempla os efeitos indiretos, como o desestímulo ao turismo, à mobilidade urbana e à confiança dos investidores. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o crime custa ao Brasil cerca de R$ 372 bilhões por ano. É um rombo que compromete a competitividade do país, reduz o PIB e perpetua a desigualdade.

Mas o prejuízo não é apenas financeiro. A violência corrói a estrutura emocional da sociedade. Crianças crescem em estado de alerta permanente, com o sistema nervoso afetado pela exposição constante ao medo. Famílias vivem acuadas, reféns de facções, milícias ou da omissão do Estado. A sensação de insegurança jurídica — quando o cidadão não sabe se será protegido ou se o criminoso será punido — mina a confiança nas instituições e alimenta o descrédito na democracia.

Nesse cenário, as instituições policiais são pilares fundamentais. São elas que enfrentam o crime organizado, que protegem o cidadão comum, que garantem a ordem pública. Sem polícia forte, equipada e respeitada, não há paz. E sem paz, não há progresso. É preciso reconhecer o papel estratégico das forças de segurança e investir nelas com seriedade, sem cair na armadilha ideológica que tenta deslegitimá-las.

Infelizmente, parte da política brasileira — especialmente setores que se autodenominam progressistas — têm cometido um erro grave: a defesa aberta de criminosos em nome de uma suposta justiça social. Ao relativizar o crime, ao atacar sistematicamente a atuação policial, ao transformar bandidos em vítimas e vítimas em culpados, esses grupos contribuem para a normalização da barbárie. A mídia, muitas vezes alinhada a essa pauta, reforça essa inversão de valores, dando voz e espaço a narrativas que ignoram o sofrimento das pessoas de bem e o esforço dos profissionais da segurança pública.

Esse discurso não apenas deseduca, mas atrasa. Ele impede que o país avance em políticas sérias de combate à violência, que envolvam repressão qualificada, prevenção social e fortalecimento institucional. Ao invés de promover o progresso, essa retórica ideológica perpetua o caos, alimenta o medo e sabota o futuro.

O Brasil precisa romper com essa lógica. Precisa entender que o combate à violência não é uma pauta de direita ou de esquerda — é uma pauta de sobrevivência nacional. É preciso restaurar a autoridade do Estado, valorizar quem protege, punir quem destrói e garantir que o cidadão possa viver, trabalhar e sonhar sem medo. Porque onde há violência, não há progresso. E onde há paz, há esperança.